Circo Sem Palhaços – Picadeiro de Idiotas
Hoje, às 20h, começou o primeiro debate presidencial da campanha. E, no palco, faltam justamente dois nomes que lideram as pesquisas.
Isso não quer dizer que sejam os melhores — pesquisa mede intenção de voto, não caráter, competência ou capacidade de governar.
Luiz Inácio Lula da Silva não foi. Flávio Bolsonaro também não. Cada um apresentou sua justificativa, falou em condições, equilíbrio, estratégia. No fim das contas, política também é cálculo: quem governa não quer virar vidraça pelos erros que carrega; quem está na oposição não quer gastar pedra se o principal alvo nem sequer abriu a janela.
E seguimos nós, assistindo ao espetáculo.
Talvez o problema nem seja a ausência deles. Talvez seja o fato de termos chegado a um ponto em que a política brasileira virou definitivamente um Fla-Flu eleitoral.
E olha que eu gosto de Fla-Flu.
Na política, porém, a lógica da arquibancada é uma desgraça. Não importa mais o que o sujeito fez, importa a camisa que veste. Não importa a proposta, importa derrotar o outro. Não importa se o meu candidato mentiu, se foi incoerente ou se fez exatamente aquilo que jurava combater. Se é do meu lado, eu justifico. Se é do outro, eu condeno.
E aí mora uma pergunta que talvez valha mais que quatro horas de debate:
O que falta para o brasileiro se desprender do fanatismo, começar a cobrar propostas e, em vez de bater palma para político de estimação, cobrar o valor do próprio voto?
Lula sancionou, em 2024, a lei que instituiu a cobrança que ficou conhecida como “taxa das blusinhas”. Agora, em ano eleitoral, o assunto reaparece com discurso favorável à sua retirada.
Pode discutir Congresso, pressão empresarial, contexto econômico, responsabilidade compartilhada — e deve. Mas não dá para apagar a fotografia anterior só porque a eleição chegou. O eleitor não pode ser tratado como palhaço de circo que esquece o espetáculo assim que as luzes se apagam.
Do outro lado do picadeiro, Flávio Bolsonaro posa de fiscal da moralidade alheia enquanto precisou explicar sua participação na busca de dinheiro de Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre o próprio pai.
Estamos falando de R$ 61 milhões atribuídos ao repasse para a produção. Para efeito de comparação, Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, teve orçamento estimado em R$ 45 milhões.
Cinema é caro.
Mas certas produções políticas parecem não conhecer limite de orçamento.
E aí aparece o velho truque brasileiro: quando a história acontece do outro lado, é escândalo, vergonha e prova definitiva de falta de caráter. Quando bate à porta do nosso candidato, surgem contexto, explicação, perseguição, narrativa, coincidência e uma súbita paixão pelo benefício da dúvida.
Esses são apenas dois exemplos recentes. Se resolvermos abrir o álbum completo da política brasileira, esta coluna vira enciclopédia e o garçom fecha o bar antes de chegarmos à República Velha.
O que me interessa aqui é outra coisa.
Imagino uma mesa de bar.
De um lado, Lula.
Do outro, Flávio.
No meio, eu, meu copo americano e a conta aumentando.
Enquanto eu me embriago discutindo qual desses dois filhos da puta merece menos confiança para ocupar a cadeira de maior poder do país, talvez eles estejam rindo da nossa cara.
Porque amanhã nós continuaremos brigando.
Amizades terminam.
Famílias discutem.
Grupos de WhatsApp viram campos de batalha.
Um chama o outro de comunista. O outro responde fascista. Um passa pano para corrupção porque veio da esquerda. O outro passa pano porque veio da direita.
E os políticos?
Os políticos negociam.
Porque Brasília nunca teve a mesma dificuldade que o eleitor tem para sentar à mesa com o adversário.
É por isso que não é um gole à esquerda ou à direita que define tua ideologia.
São ações.
São atitudes.
É o critério que você mantém quando o erro é cometido por alguém em quem você votou.
Quer falar de caráter? Ótimo.
Mas caráter que muda conforme o número apertado na urna não é caráter.
É torcida.
E talvez esse seja o verdadeiro picadeiro de idiotas: não o debate com púlpitos vazios, mas uma sociedade em que milhões de pessoas entregam gratuitamente sua capacidade crítica a políticos que sequer sabem que elas existem.
Não me interessa trocar um político de estimação por outro.
Não quero um canalha para chamar de meu.
Quero ter o direito de cobrar todos, inclusive — e principalmente — aquele em quem votei.
Porque voto não é casamento.
Partido não é religião.
E político não merece fã-clube.
Merece fiscalização.
O dia em que entendermos isso talvez a política deixe de ser Fla-Flu e volte a ser aquilo que deveria ter sido desde o início: uma disputa para decidir quem administra melhor o nosso dinheiro, os nossos serviços e o nosso futuro.
Até lá, o circo permanece armado.
Os palhaços faltaram ao espetáculo.
Mas o picadeiro continua lotado.
Um brinde à hipocrisia.
Boêmio Comenta.
