STF sob pressão: quando a Corte vira parte do debate que deveria arbitrar

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Palácio do Supremo Tribunal Federal destruído, após distúrbios antidemocráticos no ultimo domingo

Conflitos internos, decisões de enorme repercussão e questionamentos sobre transparência colocam o Supremo diante de um desafio que vai além dos processos: preservar a confiança pública.

O Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição que poucas instituições brasileiras conseguem alcançar. É a mais alta instância do Poder Judiciário e tem como missão primordial a guarda da Constituição. Entre suas atribuições estão o julgamento de ações de inconstitucionalidade e de determinadas autoridades nas hipóteses previstas constitucionalmente.

Justamente por possuir tamanho poder institucional, o STF precisa conviver com uma cobrança igualmente grande.

E talvez esse seja um dos pontos centrais do momento atual: quanto maior o protagonismo de uma Corte, maior deve ser a preocupação com transparência, previsibilidade, colegialidade e confiança pública.

O Supremo deixou de ser assunto apenas de juristas

Durante muito tempo, boa parte das discussões do STF parecia restrita aos tribunais, universidades e escritórios de advocacia. Hoje, decisões e conflitos envolvendo ministros chegam rapidamente às redes sociais, programas de televisão e conversas cotidianas.

Isso não significa, por si só, que o Supremo esteja extrapolando suas competências. A própria Constituição atribui ao Tribunal decisões sobre questões capazes de produzir enorme impacto político e social.

Mas existe uma consequência inevitável: quanto mais o Tribunal aparece no centro das grandes disputas nacionais, mais suas decisões passam a ser submetidas ao escrutínio da sociedade.

E crítica institucional não deve ser confundida automaticamente com ataque à democracia.

O próprio presidente do STF, Edson Fachin, afirmou em agosto de 2026 que críticas feitas dentro dos limites republicanos podem contribuir para fortalecer a democracia.

Quando o problema entra dentro da própria Corte

Os acontecimentos recentes tornaram essa discussão ainda mais delicada.

Em setembro, divergências envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça chegaram ao plenário no contexto do caso Banco Master. Segundo a Agência Brasil, o Tribunal encerrou uma sessão sem definir a questão, depois de divergências sobre o rito e de um pedido de vista do ministro Flávio Dino.

Posteriormente, o STF retomou suas sessões regulares enquanto a controvérsia permanecia pendente.

Independentemente da conclusão futura desses casos, episódios desse tipo demonstram por que procedimentos claros e decisões institucionalmente compreensíveis são importantes.

Uma Suprema Corte não precisa ser unânime. Pelo contrário: divergências jurídicas são naturais.

O problema surge quando o cidadão tem dificuldade para separar a instituição, as decisões jurídicas e os conflitos entre seus integrantes.

Transparência não pode ser apenas uma palavra bonita

O STF mantém instrumentos públicos de transparência, prestação de contas, estatísticas, atos normativos, relatórios de gestão e informações sobre processos.

Isso precisa ser reconhecido.

Mas transparência institucional não é apenas disponibilizar documentos.

Também significa tornar compreensíveis os critérios utilizados nas decisões, explicar procedimentos, reduzir dúvidas sobre conflitos de interesse e permitir que a sociedade entenda por que casos semelhantes eventualmente recebem tratamentos diferentes.

Em uma democracia, autoridade e prestação de contas precisam caminhar juntas.

O tamanho do Supremo

Outro ponto que muitas vezes desaparece no debate político é a dimensão real do trabalho da Corte.

No primeiro semestre de 2026, segundo balanço divulgado pelo próprio STF, foram aproximadamente 60 mil decisões, mais de 11 mil delas colegiadas. As Turmas e o Plenário julgaram mais de 11.850 processos em sessões presenciais e virtuais.

Portanto, reduzir toda a atuação do Supremo a meia dúzia de processos politicamente explosivos também produz uma visão incompleta da instituição.

Mas o inverso igualmente merece atenção: uma enorme produtividade processual não elimina a necessidade de discutir os casos que afetam diretamente a percepção pública sobre independência, imparcialidade e limites institucionais.

O Supremo não precisa estar acima da crítica

Defender a existência e a independência do STF não exige considerar seus ministros imunes a questionamentos.

Da mesma forma, discordar de uma decisão do Supremo não significa necessariamente rejeitar o Estado Democrático de Direito.

Uma democracia madura deveria ser capaz de sustentar as duas ideias simultaneamente.

Ministros possuem enorme responsabilidade justamente porque suas decisões podem afetar governos, Congresso, empresas, imprensa e milhões de cidadãos.

Por isso, quanto maior o poder, maior deve ser a disposição para justificar seu exercício.

A conta final é a confiança

No fim das contas, o maior patrimônio de uma Suprema Corte não é popularidade.

É credibilidade.

O STF não foi criado para vencer concurso de aprovação pública nem para decidir de acordo com pesquisas de opinião. Sua obrigação constitucional é aplicar e proteger a Constituição.

Mas independência judicial e confiança social não são conceitos incompatíveis.

Uma Corte forte é aquela capaz de tomar decisões difíceis e, ao mesmo tempo, demonstrar que seus integrantes estão submetidos a regras, procedimentos e controles institucionais.

O desafio atual do Supremo, portanto, talvez não seja falar mais alto que seus críticos.

É fazer com que a força de suas decisões venha, cada vez mais, da clareza das regras, da consistência dos procedimentos e da confiança na instituição.

Porque, numa democracia, nenhum Poder perde autoridade por ser fiscalizado. A fiscalização é justamente uma das coisas que legitimam o poder.

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