Goles Secos, Escolhas Amargas!
Goles Secos, Escolhas Amargas!
Matar ou morrer?
Parece simples quando reduzido a duas palavras. Dentro de uma família, quase nunca é.
Entre paredes silenciosas, afetos, culpas e traumas nunca superados, uma única decisão pode desencadear acontecimentos irreparáveis. Enquanto quem está de fora julga com a facilidade de quem não precisa apertar gatilho algum, quem está dentro carrega histórias, feridas e escolhas que nem sempre cabem em certo ou errado.
Todos temos uma história. Mas até que ponto a nossa tem o direito de se sobrepor à do outro?
Vale a pena, para viver a sua história, apagar a de alguém?
Para construir uma família, é preciso destruir outra?
A vida é feita de escolhas e consequências. Às vezes estamos com a caneta na mão. Em outras, alguém escreve por nós sem sequer pedir assinatura. Somos escolhidos, preteridos, deixados para trás ou colocados no meio de situações que nunca pedimos para viver.
Às vezes, simplesmente por existir e estar naquele lugar, naquela hora, naquela ocasião.
Certa vez escrevi um poema.
Não sou poeta. No máximo, um filósofo de bar que, depois de alguns goles, por vezes acredita compreender coisas que sóbria e educadamente a humanidade prefere ignorar.
O poema se chama “Goles Secos, Azeitonas Doces”. Escrevi em 2014, numa madrugada fria, quando a orla de João Pessoa ainda tinha vida depois que boa parte da cidade já havia ido dormir.
Eu bebia.
Ao meu lado havia uma mesa já abandonada. Num prato, restos deixados por algum cliente que sequer devia lembrar que estivera ali.
Foi quando apareceu um garoto.
Não pediu dinheiro. Não pediu comida. Não pediu nada.
Apenas pegou algumas azeitonas que haviam sobrado naquele prato.
E aquilo me desmontou.
Eu estava ali, com o privilégio absolutamente banal de poder pedir outra cerveja. Ele estava satisfeito com a sobra de alguém.
Naquela madrugada escrevi:
“Vidas que se cruzam
Se perdem no achar
Realidades distintas.”
Talvez eu não compreendesse completamente aqueles versos quando os escrevi.
Hoje compreendo um pouco mais.
Nenhum de nós havia escolhido inteiramente o lugar que ocupava naquela cena.
Eu não havia escolhido todas as circunstâncias que me permitiam estar sentado bebendo. Muito menos aquele garoto escolhera procurar comida em uma mesa abandonada.
Mas naquela madrugada eu ainda tinha algum poder de escolha.
Poderia ignorá-lo.
Poderia olhar para o outro lado.
Poderia continuar bebendo como se aquela cena não tivesse acontecido a menos de dois metros do meu copo.
Escolhi chamá-lo. Dei-lhe algum dinheiro. Vi um sorriso.
Pouco diante da vida. Muito para aquela madrugada.
No poema escrevi também:
“Vi sorriso, vi amor ao pouco em que pude ajudar.”
E talvez esteja aí uma das armadilhas da vida: acreditamos que teremos sempre o poder de decidir.
Não teremos.
Já fui escolhido e já fui preterido.
Já tomei decisões e já sofri decisões tomadas por outros.
Já caí em calçadas onde escolher definitivamente não estava em minhas mãos.
Num dia a vida entrega a caneta. No outro, escreve nosso destino sem consultar sequer a pauta da reunião.
E seguimos.
Algumas vezes escolhendo.
Em outras, suportando escolhas.
Por isso talvez a pergunta não seja apenas até onde você está disposto a ir para seguir em frente.
A pergunta é: o que você está disposto a destruir para chegar onde quer?
Vale tudo?
Vale apagar outra história para continuar escrevendo a sua?
Vale sacrificar quem esteve ao seu lado quando você ainda não tinha nada?
Vale formar um novo mundo deixando os escombros do antigo sobre quem jamais pediu para participar da guerra?
Toda escolha tem alguém do outro lado.
Um pai.
Uma mãe.
Um filho.
Um irmão.
Um amigo.
Ou até um desconhecido recolhendo azeitonas de uma mesa enquanto você pede mais uma cerveja.
Amanhã pode ser a sua vez de estar naquele lado.
Pode ser você aguardando a decisão de alguém.
Pode ser você dependendo de uma mão que talvez venha — ou talvez escolha simplesmente não aparecer.
Naquele velho poema escrevi:
“Hoje choro por saber que azeitonas ainda procura…”
Talvez estivesse falando daquele garoto.
Talvez, sem saber, estivesse falando de todos nós.
Cada um procura sua azeitona em alguma mesa.
Afeto.
Reconhecimento.
Lealdade.
Oportunidade.
Perdão.
Uma segunda chance.
A diferença é que alguns podem escolher o banquete.
Outros precisam agradecer pelos restos.
E é por isso que ingratidão talvez seja um dos sentimentos mais amargos que existem.
Mas existe algo ainda pior: descobrir tarde demais que, quando chegou a sua vez de escolher por alguém que sempre escolheu você, faltou coragem.
Existem decisões cujo gatilho não dispara na hora.
É a memória que o aperta, um pouco, todos os dias.
No fim, talvez seja apenas isso.
Hoje você escolhe alguém.
Amanhã, alguém escolherá você.
E convém lembrar que, do outro lado de qualquer decisão, existe sempre uma história tentando continuar.
Então olhe para os lados.
Talvez tenha alguém procurando azeitonas enquanto você reclama da cerveja quente.
Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim.
Até domingo.
Boêmio Comenta.
