Independência ou Morte? Morte!
Independência ou Morte? Morte!
Amanhã teremos bandeiras.
Verde e amarelo nas ruas, discursos sobre liberdade, soberania, democracia e amor ao Brasil.
Teremos manifestações de todos os lados.
Só não sei se teremos alguma comemoração verdadeira pela Independência.
Porque, olhando para o país de hoje, tenho a impressão de que boa parte dos brasileiros não quer ser independente.
Quer apenas escolher quem segura o chicote.
Durante a semana assistimos a mais um capítulo dessa tragicomédia nacional.
Denúncias, mensagens, suspeitas, investigações, sigilos, acusações entre autoridades e uma guerra política em que cada lado tenta desesperadamente provar que a fossa do adversário fede mais que a sua.
E talvez seja esse o grande retrato do Brasil atual.
Não queremos limpar a fossa.
Queremos decidir quem terá autorização para nadar nela.
Pouco antes de a nova crise institucional explodir diante do país, Brasília vinha ensaiando sua própria confraternização.
Primeiro, um jantar reservado na casa de um integrante da mais alta Corte do país serviu de cenário para reaproximar o chefe do Executivo e o comando do Senado, depois de meses de desentendimento.
Algumas semanas depois, já a poucos dias de o escândalo ganhar as manchetes, outro encontro reuniu no palácio presidencial os chefes do Executivo, da Câmara e do Senado.
Nada disso prova conspiração alguma.
E nem precisa.
O simbolismo já basta.
Enquanto o brasileiro comum aprende desde pequeno que os Poderes são independentes e harmônicos entre si, Brasília parece ter criado uma interpretação mais confortável:
independentes diante das câmeras e bastante íntimos quando a porta fecha.
Talvez seja absolutamente normal dentro da política institucional.
Talvez seja necessário conversar.
Talvez seja até saudável.
Mas, quando pouco tempo depois surgem questionamentos que atravessam política, Judiciário, grandes interesses econômicos e investigações sensíveis, é igualmente saudável que o cidadão olhe para aquela mesa e pergunte:
até onde termina a harmonia e começa a conveniência?
Perguntar ainda pode, não pode?
De um lado ergueram o seu “Herói da Democracia”.
Herói que durante anos foi tratado por parte do país como barreira definitiva contra o autoritarismo.
Questioná-lo virou, muitas vezes, quase uma heresia.
Só que democracia não deveria produzir santos.
Muito menos santos de toga.
Agora aparecem mensagens, relações, contratos e circunstâncias que merecem explicações.
Isso significa culpa?
Não.
Significa investigação.
Significa transparência.
Significa exatamente aquilo que se exigiu de tanta gente nos últimos anos:
que se apure.
Sem proteção por currículo.
Sem imunidade por popularidade.
Sem escudo porque determinada autoridade derrotou o inimigo político da vez.
Porque instituição pública não merece fé.
Merece fiscalização.
Foi também essa mesma Justiça que condenou a 14 anos de prisão uma mulher envolvida nos atos de 8 de janeiro.
É bom deixar claro: ela não foi condenada simplesmente porque passou batom numa estátua. Foram reconhecidos vários crimes.
Mas reconhecer isso não deveria impedir outra pergunta:
a pena foi proporcional à participação individual daquela pessoa?
Perguntar sobre proporcionalidade virou defesa de golpe?
Questionar uma decisão judicial virou ataque ao Estado Democrático?
Se chegamos a esse ponto, talvez tenhamos um problema bem maior do que qualquer condenado.
Democracia onde político não pode ser criticado é culto.
Democracia onde juiz não pode ser questionado é outra coisa.
E nenhuma das duas me interessa.
Mas aí aparece o outro lado.
Porque essa coluna não nasceu para trocar um político de estimação por outro.
Enquanto uma torcida descobre subitamente que seu “Herói da Democracia” talvez também deva algumas explicações, a torcida adversária comemora como se finalmente tivesse encontrado a prova definitiva de que sempre esteve certa sobre tudo.
Calma.
Na mesma lama existem investigações, relações e perguntas envolvendo personagens queridos por essa turma também.
Há, inclusive, uma produção cinematográfica sobre um ex-presidente cujo financiamento entrou no radar das investigações relacionadas ao mesmo universo de interesses.
Há questionamentos.
Há sigilo.
Há versões.
Há coisas a esclarecer.
Então esclareçam.
Se está tudo correto, ótimo.
Abram.
Investiguem.
Concluam.
O que não serve é defender transparência quando o investigado é adversário e descobrir subitamente as maravilhas do devido processo legal quando o problema bate na porta do seu lado.
E aqui talvez esteja a maior doença política brasileira.
A régua muda conforme o número apertado na urna.
Quando é o outro:
— INVESTIGA!
Quando é o nosso:
— Calma, precisamos respeitar as instituições.
Quando é o adversário:
— CADEIA!
Quando é o aliado:
— Não podemos fazer julgamento antecipado.
Quando determinado ministro atinge meu inimigo:
— Guardião da democracia!
Quando resolve atingir alguém do meu campo:
— Ditador!
Não existe princípio nisso.
Existe torcida.
E caráter que muda conforme a camisa não é caráter.
É arquibancada.
Aliás, nomes?
Hoje vou economizar.
O Boêmio Comenta completa apenas um mês e ainda não faturou o suficiente para abrir um departamento jurídico.
Então cada leitor que distribua as carapuças como achar melhor.
Tenho certeza de que não faltarão cabeças.
E chegamos ao 7 de Setembro.
Amanhã veremos brasileiros vestidos de verde e amarelo dizendo que lutam pela liberdade.
Veremos outros dizendo que estão defendendo a democracia.
Cada grupo carregará seus símbolos.
Suas palavras de ordem.
Seus heróis.
Seus salvadores.
Cada lado absolutamente convencido de que está lutando contra o sistema.
Enquanto marcha atrás de alguém que já está dentro dele.
Eis a nossa independência.
De um lado, gente disposta a defender político como se fosse parente.
Do outro, gente disposta a defender autoridade pública como se questioná-la fosse pecado.
Um idolatra quem ocupa o Executivo.
Outro idolatra quem pretende ocupá-lo.
Outro escolhe ministro de tribunal para chamar de seu.
E no final todos se dizem livres.
Livres?
O sujeito acorda cedo.
Trabalha.
Paga imposto.
Enfrenta fila.
Espera atendimento público.
Reclama do salário.
Paga caro pela comida.
Paga caro pelo combustível.
Paga caro por quase tudo.
À noite pega o celular e dedica gratuitamente duas horas da própria vida para defender um homem poderoso que provavelmente jamais saberá que ele existe.
Briga com o irmão.
Bloqueia o amigo.
Xinga o vizinho.
Rompe amizade de vinte anos.
Tudo para proteger alguém que amanhã poderá sentar à mesa com o inimigo que ele passou a noite inteira xingando.
Porque Brasília tem uma característica fantástica.
Os políticos sempre conseguem conversar depois que os eleitores terminam de brigar.
Executivo conversa com Legislativo.
Legislativo conversa com Judiciário.
Judiciário conversa com Executivo.
Todos falam em diálogo institucional.
E o povo?
O povo continua na internet se matando para decidir qual desses diálogos é democrático e qual é conspiração.
Dependendo, evidentemente, de quem está sentado à mesa.
Por isso amanhã talvez não seja dia de Independência.
Talvez seja dia de velório.
Velório da nossa capacidade de utilizar a mesma régua.
Velório da independência entre instituições que já não conseguem convencer boa parte da população de que suas relações terminam onde deveriam começar seus limites.
Velório de uma classe política que transformou convicção em instrumento de negociação.
E principalmente:
velório do senso crítico do brasileiro.
Hoje não tem malte.
Nem aquela cerveja vagabunda que de tão cheia de milho quase pede para ser servida com manteiga.
O copo americano fica no balcão.
Porque, se depois de alguns goles eu falar demais, existe o risco de o Boêmio Comenta não chegar ao segundo mês.
E seria uma pena.
Ainda tenho muito o que falar…
Enfim,
Amanhã é dia de morte.
Calma.
Não morte de gente.
Morte moral.
Morre um pedaço das instituições cada vez que deixamos de exigir delas explicações porque gostamos de quem as ocupa.
Morre um pedaço da política cada vez que aceitamos corrupção, abuso, negociata ou privilégio porque “o outro lado faria pior”.
E morre um pedaço da nossa própria liberdade quando entregamos voluntariamente nossa capacidade de pensar a alguém que colocamos num palanque.
Não precisamos mais de senhores.
Nós mesmos os escolhemos.
Não precisamos que coloquem correntes.
Nós vestimos a camisa.
Não precisamos que nos mandem defender ninguém.
Nós fazemos isso de graça.
Talvez o chicote moderno seja justamente esse.
Não aquele que rasgou as costas de milhões de seres humanos numa das páginas mais vergonhosas da nossa história — escravidão racial que jamais pode ser banalizada por metáfora alguma.
O chicote de hoje é outro.
É o da servidão voluntária do pensamento.
Ele não corta a pele.
Corta o senso crítico.
E o mais impressionante é que fazemos fila para escolher quem vai segurá-lo.
Então amanhã, quando ouvir:
“Independência ou Morte!”
olhe ao redor.
Veja as bandeiras.
Veja os políticos.
Veja os ministros.
Veja os discursos.
Veja as torcidas.
E pergunte apenas:
independência de quem?
Porque um povo que precisa de um político para pensar por ele não é independente.
Um povo que precisa de um juiz para escolher seu inimigo não é independente.
Um povo que muda seus princípios conforme o personagem envolvido não é independente.
É apenas obediente.
Amanhã não brindarei à Independência.
Brindarei ao seu velório.
E para você que ainda consegue criticar quem recebeu seu voto, desconfiar de quem pensa como você e reconhecer uma injustiça mesmo quando ela beneficia seu lado, sobra um lugar aqui no balcão.
Beba a revolta comigo.
Hoje nem precisa de cerveja.
A hipocrisia será suficiente para embriagar o país inteiro.
Um brinde triste à Independência.
Ou melhor:
à sua morte.
Boêmio Comenta.
